Pedro Proença

January 30 - February 26 2019

​Em 1936, Picasso, numa crise sentimental, decide abandonar a pintura e consagrar-se freneticamente à poesia. O acolhimento dessa poesia esteve longe de ser entusiasta (ainda que hoje esteja na moda entre persistentes vanguardistas). No sentido inverso, o poeta Marcel Broodthaers decidiu tornar-se artista. O êxito não se fez esperar. É a partir da inversão desta declaração-obra de Broodthaers que John Rindpest (Pedro Proença), tradutor da poesia de Picasso e autor de um romance (Minotauro no Parnaso), decide conceber em livros on-line falsas instalações que parodiam imagens e processos da Arte Conceptual: I, too, wandered whether I could do something honest to become poor in life. For some time I had been sucesseful at anything. I am fifty five years old now… Finally the idea of inventing something insincerely sincere crossed my mind and I set to work straightaway. At the end of one year I showed what I had written to a friend publisher. "But it is poetry" he said "and I'll try to publish part of it." "Agreed" I replied. "If I sell some books, I take 10%. It seems these are the usual conditions". What is poetry? In fact it is pretencious words spared in books hard to sell. And it's practically impossible to live of it. O insinceramente sincero é um topos pessoano ("Artigos políticos insinceramente sinceros", in Ode Triunfal). Em Rindpest, a vontade de uma vida e prática poética coincidir com o fazer obras de arte é o oposto do diagnóstico do actual estado das artes feito por Peter Sloterdijk : The future of the art system is thus easy to predict: it lies in its fusion with the system of the largest fortunes. No seu primeiro livro, Abuctions, Rindpest mostra uma instalação à maneira de Wienner que é sintomática do que acabamos de afirmar. Em cima tem escrito, em grande, a bold; SENTENCE ON A WALL TO BE SOLD AS ART e em baixo, em pequeno e thin; SENTENCE ON A WALL TO BE FELT AS POETRY. No seu segundo livro, Rindpest reivindica a herança duchampiana como distância não só do óptico como do objectual: I think that in the case of Duchamp, the appropriation factor is overestimated in comparison with the poetic factor, of which it is inseparable. From my point of view the act of appropriation (and of pseudo-provocation) is subsidiary to the poetic act (which is essentially an experience of language). Hence the insistence on non-optical aspects. Este livro está repleto de instalações, livros, textos, objectos, entradas do dicionário etimológico de Grego Antigo (o famoso Chantrainne). Uma das instalações, cheia de linhas de reticências, tem escrito por baixo, ALL POINTS ARE NON-RETURN POINTS, numa resposta ao aforismo de Kafka: A partir de um certo ponto, não há retorno. Esse é o ponto que tens de agarrar. Assim, a passagem de parte deste livro a exposição (que é o que vem aqui exposto) é um inevitável ponto de não-retorno que reconfigura não só a obra de Rindpest como a sua diversa obra. A falsificação, a paródia e o pastiche geram heteronímias (que por sua vez remixam textos e coisas e remixando-nos) e fazem nas nossas vidas, por sua vez, efeito delas. A passagem do falso, do pseudos grego, à ficção, e, seguidamente, ao real, é efectiva. Este programa começou a ser já enunciado por nós há mais de 30 anos, mas é aqui que ele se torna radical e esfuziante.