'Quebrando Barreiras'

mobiliário “pós-moderno”

 

Inaugura no dia 20 de Setembro, pelas 18h00, na Galeria Bessa Pereira.

Exposição inserida na nona edição do Bairro das Artes onde apresentamos um conjunto de mobiliário “pós-moderno” desenhado em 1980 pelo Arquitecto Fernando Pinto Coelho. Patente até 20 de outubro.

«A Galeria Bessa Pereira – Fine Arts & Furniture apresenta uma selecção de peças de mobiliário, desenhadas pelo Arquitecto Fernando Pinto Coelho, sob o título “Quebrando Barreiras”.

Fernando Pinto Coelho (Coimbra, 1951) é uma personalidade multifacetada que desenvolveu ao longo da sua vida uma série de colaborações e actividades muito próximas da esfera da arte, sem perder de vista a arquitectura. Colaborou com a Associação Académica de Coimbra e com o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC); trabalhou no Gabinete de Design do Arquitecto João Baptista no biénio de 1970/71, bem como no projecto SAAL, com intervenções no espaço público. Nessa mesma década fez parte do Grupo Puzzle que desenvolveu, de forma activista, intervenções, exposições de artes plásticas e performances entre 1976 e 1981. Estas datas têm importância porque, por um lado, enquadram uma nova fase política de liberdade e de democracia que Portugal viveu após a Revolução dos Cravos, em 1974, momento em que a sociedade portuguesa iniciava uma definitiva mudança no interesse e acesso à cultura e às artes visuais. Recordemos o ano de 1977 com a histórica exposição Alternativa 0, na Galeria de Arte Moderna, em Belém, e na Galeria Quadrum, também em Lisboa, a performance “Rotura” de Ana Hatherly.

Por outro lado, 1981 é o ano em que o Grupo Puzzle se dissolve, se assim podemos dizer, e é coincidentemente a data em que as peças agora expostas foram criadas por Fernando Pinto Coelho. O título da exposição, “Quebrando Barreiras”, evoca o lema do Pós-Modernismo na sua crítica à Arquitectura Moderna, ou seja, ultrapassar modelos e cânones estabelecidos, numa atitude radical que abriu novos campos para o aparecimento de outras estratégias formais e pictóricas que perspectivavam uma outra ordem estética e um outro modo de usar, mais lúdico, como se cada elemento do quotidiano fosse uma peça de um jogo, ou de um puzzle interminável. Esta transformação mostrou-se mais eclética, com uma paleta de cores e uma construção formal que anunciavam uma espécie de novo futurismo, que, não ficando refém da funcionalidade do objecto de uso, não se afastava desta, mas expressava um acto artístico e transformador, electrizante, híbrido, idiossincrático, e assim icónico.

As peças expostas foram desenhadas especificamente para uma casa particular situada em São Martinho do Campo, no norte de Portugal; estava-se no início da década de 1980, uma época em que a sociedade portuguesa se aproximava da Europa, e que esta exposição coloca na mesma esteira de desafio às regras e barreiras coevas desse tempo e do cosmopolitanismo cultural, recém-chegado ao espírito da liberdade e da desarrumação das certezas instituídas.

No plano internacional, um outro arquitecto, designer e filósofo igualmente provocador deve ser aqui referido como um importante agente desse movimento de transmutação: Ettore Sottsass (1917-2007), membro do Grupo Memphis, um colectivo de design sediado em Milão. Sob este aspecto, as diferentes áreas e correntes da cultura contemporânea começavam a cruzar-se e a integrar outras formas de expressão artística, como por exemplo a designação Memphis, apropriada de uma canção de Bob Dylan, “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again”. Esta permeabilidade a contextos diversos está presente nas peças de design deste período pós-modernista, em que os objectos assumiam uma forma escultórica e eram revestidos por uma gama de cores que podemos associar à pintura. De certo modo é como se o espírito do movimento da Pop Art tivesse transformado o nosso imaginário funcional e quotidiano, abrindo um outro campo de possibilidades, por vezes estridente, mas sem dúvida desafiante na nossa relação com a aquitectura e com o design.

As peças desenhadas por Fernando Pinto Coelho emergem dessa relação estreita entre a dimensão projectual e a manualidade do fazer artístico, entre a lógica do jogo, do que é lúdico, e a possibilidade de alterar a percepção estética e funcional de um objecto e do espaço que este determina, como um acto de liberdade e de experimentação em que uma ideia, ou um desenho, se corporaliza numa cadeira, numa mesa, ou ainda, por exemplo, num soalho. É como se entrássemos numa imagem gráfica, ou pictórica, nas dimensões que o corpo exige para existir no espaço, mas com outras coordenadas estéticas que alteram sensorialmente a nossa relação com este.»

João Silvério